Por Gabriel de Luca
Tendo a COP 30 como farol, cidades globais ao redor do mundo se movimentam em eventos debatendo a questão climática. A largada foi dada em junho, no Reino Unido, durante a London Climate Action Week, que promoveu mais de 700 eventos para aproximadamente 45 mil pessoas. Já na primeira semana de agosto, São Paulo hospedou a SP Climate Week, engajando líderes, parlamentares, empresários e empreendedores em diferentes fronteiras nos esforços pelo clima.
Esses encontros se tornarão cada vez mais recorrentes até Belém, e possuem o potencial de engajar atores de diferentes eixos, impulsionando coalizões e aprendizados intersetoriais. Entre os dias 25 e 29 de agosto será a vez do Rio de Janeiro também sediar a sua Climate Week – e é primordial sermos capazes de compilar os pontos de dissonância e convergência em cada um desses momentos, em cada cidade, sejam elas no hemisfério norte ou no sul global. Assim, organizações, grandes empresas e governo adquirem visões mais robustas dentro de uma jornada única para a COP da ação, em novembro.
Enquanto os debates ainda estão na “selva de pedra”, o Quintessa ressoa as conversas da recente SPCW, após uma participação em cinco painéis que pautaram o cenário das deeptechs no Brasil, a agenda de segurança hídrica, sistemas alimentares e casos práticos em bioeconomia e restauração ecológica.
| Impactos da mudança climática nos setores produtivos
O clima é um dos pilares da economia brasileira, principalmente no que diz respeito a matriz energética, agroindústria e pecuária, que dependem significativamente das condições meteorológicas. As grandes corporações, detentoras de cadeias de alto valor nesta indústria, passam a enxergar o debate climático como pauta relevante em áreas estratégicas do negócio – não se restringindo aos departamentos de responsabilidade social e ESG. Afinal, a emergência climática é uma ameaça real às plantas industriais, na intercorrência de grandes tragédias, e à escassez de insumos primordiais para a operação comercial, como a água.
A finitude dos recursos naturais, ao lado de condições climáticas cada vez mais hostis, formam um quadro delicado para a economia e produtividade do país nas próximas décadas, ou, até mesmo, nos próximos anos. Nesta agenda, setores público e privado possuem uma atuação ainda tímida, com risco pouco considerado, na promoção e implementação de soluções.
A materialidade do risco é tão tangível quanto a capacidade de empresas e órgãos públicos investirem no desenvolvimento, capacitação e escala de soluções tecnológicas, ou baseadas na natureza (SBN), com alto potencial de dar respostas propositivas aos desafios econômicos advindos da mudança climática – culminando em resultados relevantes para os indicadores financeiros das corporações e, também, sociais dos territórios.
| Soluções baseadas na natureza: bioeconomia, água e restauração ecológica
A partir dos insumos gerados nas cadeias amazônicas, a floresta se torna uma exportadora de produtos de baixa pegada ambiental que fortalecem comunidades, microprodutores e cooperativas com mínimo de ônus para a natureza. A mesma lógica é replicável nos outros cinco biomas brasileiros, heterogêneos em biodiversidade e homogêneos em capacidade produtiva.
Mas, para que isso seja possível, é preciso atuar em duas frentes: a primeira, e mais óbvia, é manter o bioma vivo, de pé. A segunda, um tanto mais complexa, necessita que as comunidades locais sejam capacitadas para adquirir expertise empreendedora, ao mesmo tempo que investidores e empresas também adquiram saberes dos povos originários a respeito de como agir na preservação, e proteção, dos recursos naturais. Ambos, combinados em sinergia, possibilitam que o progresso econômico seja aliado do desenvolvimento social e sustentável.
Em meio a tantos prognósticos, já é possível, sim, desenharmos algumas alavancas de mudança: no primeiro espectro, o Mapeamento de Inovações para a Cadeia da Restauração, realizado pelo Quintessa (2025), identificou mais de 150 startups brasileiras que atuam em alguns eixos para a cadeia de restauração ecológica, são eles: regularização fundiária e ambiental, sementes e mudas, capacitação e assistência técnica, monitoramento, sensoriamento remoto e mecanismos de financiamento. Trata-se de um ecossistema pulsante, com inovação de ponta para profissionalizar coletores e financiar pequenos restauradores que estão na linha de frente, nas matas e florestas.
Dessas soluções mapeadas, 22,6% atuam exclusivamente na Amazônia – considerada o “pulmão do mundo”, ainda está na sala de espera quando o assunto é a desburocratização da governança, e chegada de recursos diretos para implementação dessas tecnologias. A proteção dos biomas é fundamental para assegurar a existência de recursos naturais, essenciais para a subsistência humana, e, também, para a subsistência dos negócios – um deles é a água.
A água, o alicerce das principais atividades industriais e pecuárias garantidoras da manutenção da vida humana como conhecemos hoje, é uma discussão presente na raiz das organizações, fazendo com que líderes das mais variadas áreas lidem com a segurança hídrica dentro da operação, e não apenas no investimento público-privado.
Essas empresas possuem clareza de que a gestão dos recursos hídricos é estratégica para a evolução do modelo de negócios: produzindo mais com menos recursos, reaproveitando volumes de água que seriam descartados, ou subutilizados, na linha industrial para impulsionar a eficiência operacional. Espera-se, assim, que indústria e natureza dialoguem em uma só direção: esta rota, hoje, pode estar nebulosa – mas cabe aos protagonistas da história confluir rumo a práticas de negócio mais sustentáveis, trazendo resultados financeiros e ambientais.
A resposta brasileira às mudanças climáticas se dá quando múltiplos atores mobilizam, sistematicamente, a promoção da economia do futuro: postulada na sociobioeconomia, extraindo apenas o necessário dos seus biomas, protegendo recursos naturais que são pilastras da econômicas a partir do investimento climático.
| Soluções de base tecnológica: deeptechs climáticas
É crucial que o Brasil se posicione não apenas como receptor de investimentos, mas também como potencial desenvolvedor e exportador de soluções. Suas proporções continentais, e diversidade de biomas, oferecem a oportunidade de testar soluções em escala replicáveis a outros países. Segundo relatório da FINEP (2024), o Brasil possui 875 startups deeptechs: soluções de base científica na vanguarda do conhecimento, por vezes, restritas aos laboratórios e centros acadêmicos, enfrentando entraves para serem absorvidas pelo mercado – agente capaz de implementar e escalar os resultados dessa tecnologia.
Os desafios dessas startups são extremamente particulares: por seu pioneirismo, demandam 35% a mais de tempo e 48% a mais de capital para alcançar valuation similar a outras soluções. O cenário se agrava quando, mesmo geograficamente mais vulnerável às questões climáticas, a América Latina recebeu menos de 1% do investimento em deeptechs em comparação ao restante do globo.
Grandes organizações, compromissadas com o enfrentamento desses gargalos, compreendem que a perenidade dos resultados das deeptechs no meio ambiente, e na sociedade, são equiparadas ao seu tempo de maturação – logo, dependem de um capital mais paciente e concessional, enquanto cientistas e acadêmicos catalisam sua mentalidade empreendedora para que a inovação chegue nas plantas industriais.
Existe um mercado potencial de deeptechs no país, e a combinação de novos instrumentos de financiamento e blended finance pode elevar a taxa de sobrevivência desses negócios, ganhando tração para acessar crédito. Esses esforços combinados, que envolvem empresas, filantropos e governos, irão possibilitar que o Brasil se torne um grande polo de tecnologias escaláveis e internacionalizáveis.
| Da ECO92 a COP30: de onde viemos, e para onde vamos, na pauta climática
Em 1992 o Rio de Janeiro sediou a ECO92, evento que posteriormente deu origem às Conferências das Partes das Nações Unidas (COP). O recorte histórico mostra semelhanças entre os desafios da década de 90 e os de 2025: a polarização política, o protecionismo econômico e o levantamento de entraves tarifários pós Guerra Fria e dissolução da União Soviética.
Partindo da premissa que, posto as mesmas perguntas não será produtivo se ater às mesmas respostas, desta vez o mundo olha para como o Brasil vai conservar suas florestas, criando mecanismos financeiros capazes de recuperar a Amazônia e serem replicáveis em outras florestas tropicais. Nisto, o Tropical Forest Forever Fund (TFFF) e o Earth Investment Ending emergem como boas apostas brasileiras para as negociações nas portas da Amazônia, fazendo com que os debates climáticos não se prendam a promessas oníricas, mas criem instrumentos pragmáticos para o progresso social, econômico e ambiental.
O Estado, consolidado por instituições públicas e intraestatais, carrega uma camada a mais de responsabilidade nesta ação coletiva: é necessário criar arcabouços públicos e estruturas regulatórias que valorizem práticas econômicas mais sustentáveis – e equilibrem a balança tributária em detrimento de modelos de produção que, por diversas vezes, já tiveram seus malefícios testados e comprovados. Esta será a COP da ação: todos querem ouvir, em Belém, qual será o próximo passo rumo a modelos econômicos que levem em consideração os recursos naturais essenciais, solo, terra e água.


